A quota dos elétricos usados mais do que duplicou em Portugal em dois anos, e a explicação não é a que parece óbvia
Há dois anos, por cada 100 automóveis usados vendidos em Portugal, menos de sete eram elétricos. Hoje já são mais de 16. Segundo o mais recente Market Watch da INDICATA, plataforma de análise de mercado do grupo Autorola, a quota dos elétricos nas vendas de usados em Portugal passou de 6,67% em julho de 2024 para 16,35% em julho de 2026, mais do que duplicando em apenas dois anos.
A explicação mais imediata seria dizer que chegou mais oferta ao mercado, à medida que os elétricos comprados há alguns anos começam a circular como usados. Mas os próprios números da INDICATA contrariam essa leitura. O stock de elétricos disponíveis no mercado de usados representa apenas 12,33% do total, quatro pontos percentuais abaixo do seu peso nas vendas. Ou seja, os elétricos estão a vender-se mais depressa do que a chegar ao mercado, não o contrário: a procura está a crescer a um ritmo superior ao da oferta.
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Abrir o comparador →A resposta mais provável está no preço. Nos últimos anos, os elétricos usados desvalorizaram de forma acentuada, e o índice de preços de retalho calculado pela INDICATA está agora em 77,30% face ao valor de referência de janeiro de 2020. Foi essa correção, segundo o relatório, que colocou os elétricos usados num patamar de preço capaz de atrair um número bem maior de compradores. É também isso que explica a evolução do Market Days Supply (MDS), o indicador que mede quantos dias o stock disponível demoraria a esgotar-se ao ritmo atual de vendas: no verão de 2024, os elétricos ultrapassavam os 115 dias; no outono de 2025 ainda rondavam os 100; em abril deste ano já tinham descido para 69; em maio, para 57; e em julho, fecharam nos 55 dias, a rotação de stock mais rápida entre todas as motorizações analisadas em Portugal.

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Este movimento não é exclusivo de Portugal, mas o nosso país está longe de ser o mais avançado nesta transição. Na Dinamarca, os elétricos já representam 54,72% das vendas de usados, contra 40,34% do stock disponível. Na Finlândia, a diferença é mais estreita, 22,09% das vendas para 20,45% do stock. Alemanha e França seguem o mesmo padrão de Portugal, com uma quota de vendas superior à presença nas prateleiras. A exceção é Espanha, onde os elétricos ainda pesam mais no stock do que nas vendas, sinal de que a procura espanhola ainda não acompanhou a oferta disponível.
Nem tudo aponta, porém, para uma tendência linear e garantida. Roberto Gaspar, secretário-geral da Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA), avisa que seria um erro concluir que este ritmo de crescimento é irreversível. Na sua leitura, o mercado dos elétricos usados em Portugal ainda está a tentear um ponto de equilíbrio: a queda de preços disparou a procura, mas essa mesma queda também levanta a questão de quanto mais os preços podem ainda descer antes de se tornar difícil para quem vende recuperar o valor investido. É um problema que, nota o relatório, está a mudar de sítio: já não é tanto sobre quanto tempo um carro fica parado em stock, mas sobre o preço a que é comprado e o valor pelo qual poderá depois ser revendido.
Fontes: Market Watch da INDICATA (Autorola), Razão Automóvel, ANECRA.
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