A autonomia dos carros elétricos está a ser mal interpretada, e a culpa não é só do consumidor
Se já reparou que um mesmo carro elétrico parece ter autonomias completamente diferentes consoante o país onde é vendido, não está a imaginar coisas. O mesmo Xpeng G9L que promete mais de 800 km na China pode, em condições reais na Europa, render bem menos do que isso. O problema não é técnico, é metodológico: não existe um único ciclo de testes global, e a confusão entre eles está a moldar, de forma silenciosa, a perceção que os condutores têm da autonomia real dos seus carros.
Três ciclos, três filosofias diferentes
Há três normas principais em uso no mundo. Nos Estados Unidos, a EPA (Agência de Proteção Ambiental) usa um protocolo considerado o mais rigoroso e mais próximo da realidade, com testes que incluem velocidades mais elevadas e paragens frequentes. Na Europa, o WLTP (Worldwide Harmonised Light Vehicles Test Procedure) substituiu, em 2019, o antigo NEDC, notoriamente otimista, e é hoje visto como um meio-termo razoável, ainda que mais generoso do que a EPA. Na China, o CLTC (China Light-Duty Vehicle Test Cycle) é, de forma consistente, o mais otimista dos três, porque assenta sobretudo em condução urbana a baixa velocidade, com longos períodos parados, um cenário que raramente reflete o uso real de um carro em viagem.
A diferença entre eles não é pequena. Segundo várias fontes técnicas do setor, o WLTP costuma ficar entre 12% a 22% acima da EPA para o mesmo carro, e o CLTC pode ficar entre 35% a 40% acima da EPA, dependendo do modelo. Uma regra prática, citada por vários especialistas: CLTC 100% equivale, aproximadamente, a WLTP 85%, que por sua vez equivale a EPA 75%. Um elétrico anunciado com 700 km CLTC, um valor que já vimos em vários modelos chineses que aqui noticiámos, corresponde, na prática, a algo entre 500 e 530 km em condução real de estrada.
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Aqui está o cerne do problema: nos últimos meses, temos noticiado regularmente modelos chineses, como o BYD Da Han, o Xpeng G9L ou o Geely Ray 7, com autonomias CLTC impressionantes, precisamente porque é essa a norma usada nos mercados de origem desses carros e nas fontes internacionais que consultamos. Mas esses números não são diretamente comparáveis às autonomias WLTP que vemos nas fichas técnicas de modelos vendidos na Europa, incluindo em Portugal. Um leitor que compare, sem essa consciência, um valor CLTC chinês com um valor WLTP europeu está, sem saber, a comparar duas réguas diferentes, o que pode levar a expectativas distorcidas sobre qual carro tem realmente mais autonomia.

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Mesmo dentro do próprio WLTP, a autonomia real em condução real fica tipicamente entre 75% e 82% do valor certificado, segundo análises recentes do setor, e essa margem estreita-se ainda mais em autoestrada, a velocidades sustentadas acima dos 110 km/h, onde a eficiência de qualquer elétrico cai de forma mais acentuada do que em cidade. Isso significa que, mesmo comparando dois carros pela mesma norma europeia, o valor no ecrã ainda não é uma garantia do que se vai conseguir fazer numa viagem longa de verão ou inverno.
O que fazer com esta informação
A recomendação mais consistente entre analistas do setor é simples: nunca comparar diretamente autonomias de normas diferentes, e tratar sempre o número anunciado como um teto teórico, não como um plano de viagem. Uma forma mais fiável de comparar carros entre si, independentemente do mercado de origem, é olhar para a eficiência energética em kWh por 100 km, um valor que se mantém consistente independentemente da norma de teste usada para calcular a autonomia total, já que depende apenas do consumo do carro, não da forma como esse consumo foi extrapolado para uma distância. Um carro mais eficiente vai sempre longe com a mesma bateria, seja qual for a etiqueta usada para anunciar essa distância.
Da nossa parte, este artigo serve também como compromisso: sempre que reportarmos autonomias CLTC de modelos chineses, vamos continuar a assinalar claramente essa norma, precisamente para que os nossos leitores possam interpretar esses números com o contexto correto, e não os comparem diretamente com as autonomias WLTP que veem nos carros à venda em Portugal.
Fontes: InsideEVs, autoevolution, EVRangeConverter.com, Freshmotors, DriveAuthority.
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