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Bateria

A Donut Lab atingiu 409 Wh/kg em testes de laboratório, mas a promessa que fez há meses continua por cumprir

Redação Eletrificados · 2 de setembro de 2026·5 min de leitura
A Donut Lab atingiu 409 Wh/kg em testes de laboratório, mas a promessa que fez há meses continua por cumprir

A Donut Lab, empresa finlandesa que promete revolucionar as baterias de estado sólido, publicou um novo teste independente que mostra uma densidade energética de 409 Wh/kg e 805 Wh/L, o primeiro número de densidade energética que a empresa alguma vez registou oficialmente, depois de meses de escrutínio. Mas esse número surge à sombra de uma promessa que a própria empresa já não cumpriu: a de ter esta célula “de estado sólido” em produção, pronta para equipar um veículo real, até ao final do primeiro trimestre de 2026. Não está, e não esteve.

A promessa nunca foi o número, foi a “prontidão para produção”

Quando a Donut Lab revelou a sua bateria na CES, em janeiro, a manchete não foi 409 Wh/kg. Foi a promessa de prontidão: a empresa descreveu-a como “a primeira bateria de estado sólido do mundo pronta para uso em fabrico automóvel”, e disse que a Verge Motorcycles seria “o primeiro veículo de produção do mundo a usar esta tecnologia inovadora”, com “primeiras entregas no primeiro trimestre de 2026”. Foi essa promessa concreta, de produção real dentro de meses, e não uma promessa vaga “daqui a cinco anos”, que levou o Electrek, um órgão de imprensa historicamente cético com este tipo de anúncio, a dar atenção à empresa. Estamos agora em setembro. Não há nenhum veículo de produção a circular com esta bateria.

O que o novo teste realmente mediu

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O novo relatório vem da VTT, o respeitado laboratório nacional de investigação técnica da Finlândia, e é uma medição legítima: a VTT pesou e mediu uma única célula, batizada “Donut Battery V1.5” (DL6), descarregando-a ao longo de toda a sua gama de 2,3 a 4,25 volts, a um ritmo lento de 0,1C e a 25°C, condições que tendem a maximizar o valor de densidade energética obtido. O problema não está na medição em si, mas no que esse número não prova: 409 Wh/kg é um valor forte, mas não exige quimicamente uma célula de estado sólido, nem distingue a célula da Donut Lab de uma bateria de iões de lítio avançada. A Amprius já vende comercialmente uma célula convencional de iões de lítio, com ânodo de silício e eletrólito líquido, com 450 Wh/kg, um valor superior ao agora anunciado pela Donut Lab, enquanto projetos-piloto genuinamente de estado sólido da QuantumScape, da Toyota e da Samsung SDI apontam para valores entre os 350 e os 450 Wh/kg. Por outras palavras, 409 Wh/kg está confortavelmente dentro do que já se consegue com boas baterias de iões de lítio convencionais.

Já lá vão pelo menos três células diferentes

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O relatório da própria VTT descreve a célula testada como “uma variante otimizada para energia da célula V1”, o que significa que já existem, no registo público, pelo menos três células distintas: a V1, identificada de forma independente como sendo, na verdade, uma célula convencional de iões de lítio; a V1.5, que atingiu agora os 409 Wh/kg; e uma célula “de nova geração” separada, examinada pela Intertek. Lauri Peltola, antigo diretor comercial da Nordic Nano, parceira de fabrico da Donut Lab, alegou numa denúncia criminal apresentada em abril que a bateria testada de forma independente era “uma geração antiga que a Donut e os seus parceiros já tinham abandonado”. A Donut Lab nega qualquer irregularidade.

Continua sem existir qualquer dado sobre a vida útil da bateria

Ao fim de seis testes independentes, continua a não existir qualquer dado sobre a alegação mais extraordinária da empresa: uma vida útil de projeto de até 100.000 ciclos de carga. Este teste mais recente correu apenas dois ciclos de capacidade e parou. O argumento mais forte que a Donut Lab apresenta é que a Intertek confirmou uma estrutura interna bipolar na célula, e a empresa argumenta que “uma estrutura bipolar só é possível com um eletrólito sólido”. Mas o que a Intertek terá confirmado é a estrutura física, camadas ligadas em série com elétrodos de folha metálica dividida, não que o eletrólito é, de facto, sólido. Esse salto lógico, de “bipolar” para “logo, estado sólido”, é uma inferência da própria Donut Lab, feita ainda por cima numa célula diferente daquela que atingiu os 409 Wh/kg. A própria VTT não faz qualquer determinação sobre a química da célula no seu relatório; a palavra “estado sólido” só aparece como nome do projeto do cliente, não como conclusão técnica.

Porque é que isto interessa para lá desta empresa

Já explicámos aqui, em detalhe, a corrida real e credível às baterias de estado sólido, liderada por empresas como a CATL, a BYD, a Toyota e a Samsung SDI. O caso da Donut Lab funciona como um contraponto importante a essa cobertura: um lembrete de que nem toda a alegação de “estado sólido” resiste ao mesmo escrutínio técnico, e de que a diferença entre um número de laboratório e uma promessa de produção cumprida continua a ser a pergunta mais importante a fazer perante qualquer anúncio deste tipo.

Fontes: Electrek, VTT Technical Research Centre of Finland.

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