Faltam navios para tantos elétricos chineses: já os empilham em cargueiros de celulose. E a MG tem uma vantagem escondida
Há um estrangulamento inesperado na conquista chinesa do automóvel mundial, e não são as tarifas nem a desconfiança dos consumidores: são os navios. A indústria chinesa, puxada por marcas como a BYD, a MG e a Leapmotor, está a exportar carros a um ritmo tal que a frota mundial de navios ro-ro, os transportadores especializados onde os carros entram e saem sobre rodas por rampas, deixou pura e simplesmente de chegar. A história é contada esta quarta-feira pelo Executive Digest, a partir do espanhol El Economista, e as soluções de recurso são dignas de nota.
A Leapmotor, com o apoio da Stellantis, começou a expedir carros em cargueiros convencionais, fixados em estruturas metálicas chamadas flat racks, plataformas reforçadas sem paredes nem teto, pensadas para cargas industriais, onde os automóveis seguem empilhados em vários níveis. Mais de 1.800 veículos já viajaram assim para o Brasil. A Cosco, gigante estatal da navegação, anda a converter navios que transportavam celulose em cargueiros de automóveis com plataformas dobráveis, capazes de levar mais de mil carros por viagem. E há quem meta elétricos em contentores comuns de 40 pés, dois a quatro por caixa, como se fossem mobília.
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Abrir o comparador →Os números explicam o aperto. A BYD, que já produziu 17 milhões de veículos de nova energia, vendeu 1,8 milhões de carros no primeiro semestre de 2026, dos quais 789 mil fora da China, um salto de 68 por cento num ano. Em maio, as cinco maiores marcas chinesas atingiram 12 por cento de quota na Europa e ultrapassaram pela primeira vez as japonesas, apesar de tarifas europeias que podem chegar aos 45,3 por cento. E com o mercado interno chinês a abrandar, a pressão para exportar só aumenta: há uma indústria com capacidade de produção gigantesca à procura de compradores fora de portas, e cada navio conta.

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E é aqui que a história global encontra a nossa. A SAIC, o grupo dono da MG, viu este estrangulamento a chegar antes dos outros e respondeu à chinesa: construiu a sua própria frota. Os navios da Anji Logistics, o braço marítimo do grupo, transportam os MG diretamente para a Europa, e um deles, o Anji Forever, atracou há dias em Ferrol, na Galiza, carregado de carros para a Península, como registámos no nosso Radar de Navios. Quando olhamos para os prazos de entrega dos nossos carros, dos MG4 Urban aos MGS5, esta é a máquina invisível por trás de cada data: fábricas a milhares de quilómetros, navios contados, e uma corrida logística mundial em que ter frota própria, como a SAIC tem, é uma vantagem que não aparece em nenhuma ficha técnica.
Fica a reflexão para a comunidade: sabendo que cada MG atravessa meio mundo para cá chegar, os prazos de entrega que temos visto na sala de espera parecem-vos razoáveis? E alguém já tinha reparado que o carro que conduzimos chegou provavelmente num navio com o nome Anji pintado no casco?
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