O seguro de um elétrico ainda custa mais do que o de um a combustão em Portugal, e a razão não é a que a maioria pensa
Quem está a ponderar a mudança para um carro elétrico já ouviu, provavelmente, o argumento de que o seguro sai mais caro. É verdade, mas a explicação tem menos a ver com o facto de o carro ser elétrico e mais a ver com o que acontece quando esse carro sofre um acidente, e há já dados técnicos sérios a mostrar que parte da perceção pública sobre este tema está desalinhada com a realidade.
O que dizem os responsáveis do setor em Portugal
Em novembro de 2025, Rogério Campos Henriques, presidente executivo da Fidelidade, uma das maiores seguradoras a operar em Portugal, confirmou ao Jornal de Negócios que o custo médio de um sinistro com um veículo elétrico tende a ser superior ao de um veículo a combustão. Segundo o gestor, isso deve-se sobretudo à falta de experiência acumulada com este tipo de sinistros, às questões específicas ligadas às baterias de alta tensão e ao facto de o acesso a peças ainda não ser tão fácil como para um carro tradicional. Filipe Pestana Neves, diretor do marketplace de seguros Piscapisca.pt, fez uma leitura semelhante à Razão Automóvel na mesma altura, apontando os elétricos como os mais afetados pela subida generalizada dos prémios de seguro automóvel prevista para 2026, motivada tanto pelo aumento da sinistralidade, com 18.034 acidentes com vítimas registados em Portugal Continental e regiões autónomas só no primeiro semestre de 2025, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, como pelo encarecimento generalizado das reparações.
O setor segurador português já trata isto como uma disciplina própria
Há um sinal institucional forte de que este deixou de ser um tema secundário para as seguradoras portuguesas: a Associação Portuguesa de Seguradores (APS), que representa mais de 99% do mercado segurador nacional, lançou em maio de 2026 um curso de formação dedicado especificamente à “Eletrificação dos veículos e riscos associados”, integrado num ciclo mais amplo sobre tendências e riscos emergentes no seguro automóvel. A formação é lecionada por Rui Silva Esteves, presidente da Comissão Técnica de Patrimoniais e Responsabilidade Civil da APS e diretor-geral técnico de Não-Vida e Vida Risco da própria Fidelidade, e por Helena Rêgo, professora universitária e diretora do Conhecimento e Aprendizagem de Seguros da APS. O programa aborda explicitamente a convergência entre a eletrificação do parque automóvel, a pressão económica sobre indemnizações e a emergência de novos riscos associados à condução autónoma e à mobilidade urbana. Este tipo de investimento formativo, dirigido aos próprios profissionais do setor, é um indicador claro de que as seguradoras portuguesas reconhecem que ainda estão numa fase de aprendizagem relativamente ao risco real dos elétricos, o que ajuda a explicar por que razão o prémio continua, para já, a refletir essa incerteza.
A voz dos próprios condutores: o papel da UVE
Do lado dos utilizadores, a UVE — Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, entidade de utilidade pública fundada em 2015 e sediada em Lisboa, que representa oficialmente a comunidade portuguesa de proprietários de elétricos e híbridos plug-in — já reconheceu esta dor de forma concreta. Em maio de 2023, a associação estabeleceu uma parceria estratégica com a Seguro Directo, marca do Grupo Ageas Portugal, especificamente para oferecer aos seus associados condições mais vantajosas de seguro automóvel. O simples facto de a UVE ter ido negociar condições especiais em nome dos seus membros é, por si só, um sinal indireto mas real de que o custo do seguro continua a ser identificado pela própria comunidade organizada de condutores portugueses como um dos atritos práticos da posse de um elétrico no dia a dia, ao lado de temas mais tradicionalmente associados à associação, como a degradação da rede pública de carregamento.
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Abrir o comparador →A explicação técnica: não é o carro em si, é o que custa consertá-lo
O padrão que se repete em praticamente todas as análises do setor, portuguesas e internacionais, é o mesmo: a diferença de preço não está relacionada com o risco de acidente em si, mas com o custo de reparação quando esse acidente acontece. Um elétrico exige mão de obra especializada capaz de lidar em segurança com sistemas de alta tensão, as peças específicas destes veículos ainda são, em muitos casos, mais difíceis de obter do que as de um carro a combustão equivalente, e a bateria, que pode representar 30% ou mais do valor total do veículo, é o componente mais caro de substituir. Nalguns sinistros mais graves, uma bateria danificada pode, por si só, justificar a perda total do carro, mesmo que o resto da estrutura esteja intacto.
Uma citação que desmonta parte do mito

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Aqui está o ponto mais interessante, e o menos citado nesta conversa: o Centro de Tecnologia da Allianz (AZT), a divisão de investigação técnica da seguradora alemã, publicou uma análise detalhada dos seus próprios dados de sinistros que contraria diretamente uma parte da narrativa popular sobre elétricos. Segundo Carsten Reinkemeyer, responsável pela investigação de tecnologia e segurança de veículos no AZT, a análise de sinistros reportados de veículos elétricos não confirma que esta tecnologia seja, em si, mais insegura do que um carro a combustão. Os incêndios relacionados com acidentes são, de facto, reportados com mais frequência nos meios de comunicação quando envolvem elétricos, mas Reinkemeyer atribui isso a um viés de noticiabilidade, não a uma diferença real na frequência do fenómeno: um incêndio num elétrico é, simplesmente, notícia mais chamativa do que um incêndio num carro a combustão. O que a Allianz confirma, sim, é que quando a bateria de alta tensão é danificada, a reparação pode ser tão cara que o carro é declarado perda total, mesmo que o resto do veículo esteja em bom estado, exatamente o mecanismo técnico que explica a diferença de prémio, sem necessidade de recorrer à ideia de que os elétricos são intrinsecamente mais perigosos.
Outro dado interessante, recolhido por reparadores especializados australianos que trabalham com a rede da Allianz, aponta para um padrão de sinistros ligado à adaptação do condutor, não ao carro: uma parte significativa dos acidentes com danos por impacto na bateria acontece nos primeiros três meses após a compra de um elétrico, período em que os condutores ainda se estão a habituar à resposta imediata do acelerador e à distância ao solo mais reduzida de muitos destes modelos.
A Europa não é uniforme, e isso conta uma história interessante
Um relatório da Morningstar DBRS, divulgado em novembro de 2025, comparou o custo do seguro de elétricos em vários mercados europeus e encontrou diferenças assinaláveis entre países. Em Itália, o prémio médio de um elétrico rondava os 620 euros no primeiro trimestre de 2024, acima dos 565 euros de um diesel e dos 483 euros de um a gasolina. Em Espanha, o seguro de um elétrico já custava cerca de 13% mais do que o equivalente a combustão no início de 2025. No Reino Unido, um estudo de 2023 encontrou prémios de elétricos praticamente ao dobro dos de modelos equivalentes a combustão, uma disparidade agravada pelo facto de, entre 2022 e 2023, os prémios de elétricos terem subido 72%, segundo a Confused.com, contra apenas 29% nos carros a combustão no mesmo período. Já na Alemanha, o cenário é diferente: a concorrência entre seguradoras tem mantido os prémios de elétricos competitivos, e nalguns casos até mais baixos do que os de carros a combustão equivalentes, algo que o próprio relatório da Morningstar DBRS descreve como uma exceção dentro do panorama europeu.
O relatório aponta ainda para a causa estrutural de fundo: as seguradoras continuam a não ter dados históricos de sinistros suficientes e específicos sobre elétricos, o que dificulta uma avaliação de risco tão precisa como a que já conseguem fazer para carros a combustão, com décadas de histórico acumulado. É esta incerteza, mais do que qualquer característica intrínseca do carro elétrico, que muitas vezes se traduz num prémio mais alto.
Nem tudo é mais caro: a manutenção conta uma história oposta
Vale a pena equilibrar este retrato com um dado que raramente aparece nas conversas sobre seguros: os custos de manutenção regular de um elétrico são, na generalidade, bastante mais baixos do que os de um carro a combustão equivalente. Segundo dados do clube automóvel alemão ADAC, a diferença mais acentuada verifica-se na BMW, onde os custos de inspeção de um elétrico são, em média, 58% mais baixos do que os de um modelo a combustão comparável. Na Mercedes-Benz, a diferença é de 45%, na Volkswagen de 44%, e na Hyundai de 39%. Isto significa que, embora o prémio de seguro anual possa ser mais elevado, o custo total de posse ao longo da vida do carro pode compensar essa diferença, sobretudo quando se somam também as poupanças em combustível.
O mercado está a amadurecer, e isso já se nota
Tanto em Portugal como no resto da Europa, há um padrão que se repete: a diferença de preço entre o seguro de um elétrico e o de um carro a combustão equivalente tem vindo a estreitar-se à medida que a frota de elétricos cresce e as seguradoras acumulam mais experiência com sinistros reais, exatamente a lógica por detrás da formação que a APS decidiu lançar em Portugal este ano. Para quem está a comparar propostas, a recomendação mais consistente entre os especialistas do setor é não ficar pela primeira cotação: a variação entre seguradoras tende a ser ainda maior para elétricos do que para carros a combustão, precisamente porque cada uma está numa fase diferente de maturação da sua própria avaliação de risco para este tipo de veículo. Vale também confirmar, cláusula a cláusula, se a apólice cobre especificamente a bateria, os cabos de carregamento e eventuais avarias elétricas, coberturas que nem todas as seguradoras incluem por defeito, e verificar se a seguradora escolhida tem, ou não, uma parceria com associações como a UVE, que pode traduzir-se em condições mais favoráveis.
Fontes: Jornal de Negócios, Razão Automóvel, APS, UVE, Morningstar DBRS (via Luxurious Magazine), Allianz Center for Technology, ADAC (via go-e), Confused.com.
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